segunda-feira, junho 05, 2006

 

Entrevista com Márcio Borges


Entrevista de Márcio Borges concedida no início do ano ao Pepe Chaves do Jornal Via Fanzine.



Pepe Chaves: O que o senhor nos diz desse “renascimento”, a olhos vistos, do Clube da Esquina em todo o Brasil?

Quando cantores das novas gerações, gravam músicas feitas por vocês, há mais de vinte anos e elas voltam para a mídia?Márcio Borges: Eu vejo isso com ótimos olhos! Acho que é um momento muito bom que estamos vivendo. Ainda hoje conversei com o Milton (Nascimento) e ele está muito alegre com este renascimento, este vigor. Acho que as novas gerações estão interessadas em nossa história recente e estão empenhadas em desenterrar os tesouros ocultos da nossa cultura. E durante muitos anos estes tesouros do Clube da Esquina estavam enterrados fora da mídia, fora dos jornais e das gravadoras. Mas isso não eliminou a beleza das nossas músicas a durabilidade delas. A prova disso é este movimento aqui hoje, a cidade prestigiando este grande festival de Corais que homenageia o Clube da Esquina. Eu também estou como o Milton me falou hoje: “em estado de graça”, com tudo isso.

Pepe: A que o senhor atribui este reconhecimento?
Márcio: Eu acho que é uma coisa que a gente merecia mesmo. Sem falsa modéstia, nossas músicas são muito boas mesmo. São duráveis, não foram feitas com intenção de sucesso. Elas foram feitas com intenção de se caprichar o máximo. Elas dão um show de harmonia e são admiradas pelos maiores jazz men do mundo. O Clube da Esquina tem fã-clube no Japão, na Dinamarca, na Finlândia... E nós estamos aqui hoje contrariando o ditado que diz, que “Santo de casa não faz milagre”. E estamos simplesmente seguindo o que o resto do mundo tem feito: que é respeitar nosso trabalho, valorizá-lo e nos sentirmos influenciados por ele. Porque nós fizemos um trabalho de uma grande qualidade e credito isso, principalmente, ao fato de termos feito sem estarmos buscando sucesso. Nós estávamos buscando verdade, amor, solidariedade e aquilo o que valia a pena de transmitir de uma pessoa para outra. O Brasil pode ter esquecido isso por um tempo, mas a gente sabe que nossa mensagem é suficientemente forte, para não ser apagada com o tempo. Está aí a prova, independente de prestigio ou não da mídia, dos veículos convencionais de comunicação, as nossas musicas estão aí, nas novelas nas rádios... Não tem uma novela na Rede Globo que é lançada e não tenha pelo menos uma música nossa. Então há sempre um arsenal de músicas bonitas e inesgotáveis e é isso que o povo brasileiro como um todo, está reconhecendo. 'Estamos todos vivos, então estamos a fim de dar um depoimento vivo dessa história'

Pepe: Como é essa história de Museu Virtual do Clube da Esquina que entra no ar a partir de dezembro?
Márcio: A história do museu veio para ser uma pedra a mais nessa construção, no sentido de colocarmos à disponibilidade da população brasileira, das novas gerações e das pessoas que se interessam pela nossa história, alguns subsídios para pensarem naquilo, alguns dados imateriais, como a nossa história de vida, a nossa música, a nossa ideologia, aquilo que nos levou a compor. Estamos todos vivos, então estamos a fim de dar um depoimento vivo dessa história. E daí surgiu a idéia de se fazer o museu, que é assim, numa acepção menos retrógrada possível da palavra, pois é um museu voltado para o futuro, para a atualidade. Não será um museu voltado para o passado, para juntar quinquilharias, mas para transmitir e perpetuar este amor, esta amizade e esta vontade de “fazer coisas boas”.A partir do dia 02 de dezembro estará no ar o site http://www.museuclubedaesquina.org.br/. Nós estamos fazendo este museu com o patrocínio da Copasa e principalmente, com o patrocínio da Petrobrás, que consideraram este movimento como um movimento de utilidade pública que visa preservar a nossa cultura e nossa história.

Pepe: Nos fale um pouco de seu livro “Os sonhos não envelhecem”.
Márcio: Eu diria que o livro foi um embrião para esse movimento do museu. A partir do livro, comecei a fazer muitas palestras e conferências em escolas. Viajei o Brasil inteiro visitando escolas e universidades, falei para milhares de alunos e jovens, contando essa nossa história. Narrei um pouco do livro, contando como era o clima naquela época e isso teve uma grande aceitação por parte dos jovens que me ouviram ao longo desses anos todos, porque lancei o livro em 1996 e não tenho feito outra coisa senão viajar o Brasil e o exterior divulgando o livro e nossas intenções. Um trabalho, aliás, que vem se somar a um trabalho magnânimo, feito pelo Milton Nascimento, que nunca se esqueceu de suas origens no Clube da Esquina e se tornou o principal divulgador dessa grande geração que transitou aqui, pelas ruas de Belo Horizonte. E aqui, nós conseguimos construir esta obra, que se mostrou duradoura, vencendo estes anos todos que vieram por aí. 'Hoje é muito difícil de acontecer isso no mercado fonográfico: uma música se impor por sua qualidade! Hoje ela se impõe por sua massificação, pela quantidade de dinheiro que foi aplicada na divulgação dela'

Pepe: O senhor é parceiro de expressivos músicos mineiros. Tem alguma nova parceria pra vir à tona que possa nos adiantar?
Márcio: Ontem mesmo acabei de fazer uma canção nova com o Lô (Borges), que se chama “O Silencio e o Som”, que é mais ou menos no naipe de “Quem sabe isso, quer dizer amor”. Continuamos na ativa, continuamos compondo. Há aquela teia de amizade tecida entre os parceiros: é o Bituca com Telo; é o Telo comigo; sou eu com o Lô; o Lô com o Beto (Guedes); o Beto com Murilo Antunes... Ou seja, nós temos uma teia de amizade e composição que nunca parou, continua ativa. O que aconteceu foi que a mídia passou a funcionar sob determinadas diretrizes, que a gente combatia a vida inteira. Que é aquela instituição um pouco vergonhosa do “jabá”, do cara pagar para ser executado em rádio e tevê. Nós nunca pagamos para sermos executados. Hoje vimos aqui, milhares de pessoas cantando nossas músicas e nem um tostão foi gasto para que elas fossem divulgadas. Elas se impuseram por si mesmas. Hoje é muito difícil de acontecer isso no mercado fonográfico: uma música se impor por sua qualidade! Hoje ela se impõe por sua massificação, pela quantidade de dinheiro que foi aplicada na divulgação dela. E acho que isso reduz um pouco, a grandeza do mercado fonográfico. Porque hoje a grandeza da música brasileira, a qualidade, está fora do mercado fonográfico, são as produções independentes, que provam isso que estou dizendo.'quando fizemos estas músicas há 20 ou 30 anos atrás, estávamos fazendo músicas duradouras, destinadas a vencerem o tempo'

Pepe: Há um disco antológico chamado “Os Borges”, lançado pela família Borges há mais de 20 anos, que reúne das melhores canções compostas em família. Por que o disco “Os Borges” não foi relançado, haja vista sua denodada qualidade criativa e seu valor artístico?
Márcio: O disco "Os Borges" foi gravado depois que o Lô gravou o disco do tênis [N.E.: primeiro disco solo de Lô Borges, traz a foto de um tênis Adidas de cano alto na capa, daí o nome “disco do tênis”]. A Música “Voa Bicho”, de "Os Borges", foi regravada recentemente por Milton Nascimento e Maria Rita, vindo a ser tema de novela. E foi o que eu disse no inicio, aos poucos, estes tesouros ocultos do Clube da Esquina estão voltando à tona, e quando são redescobertos, nos surpreendem pela atualidade. E quando nos surpreende, eles agradam. Isso prova que, quando fizemos estas músicas, há 20 ou 30 anos, estávamos fazendo músicas duradouras, destinadas a vencerem o tempo.

Pepe: Márcio, obrigado pela entrevista. Peço-lhe para nos deixar as suas considerações finais:
Márcio: Eu mando um grande abraço para a galera de Itaúna, e informo que estou às ordens, se quiserem me convidar para ir aí fazer uma palestra, bater um papo com os estudantes. Pepe: Então esteja convidado desde já, uai!Márcio: Estou aqui pra isso, me dedico a isso e adoro estabelecer esta ponte entre as velhas e as novas gerações, para a gente provar na prática, que "os sonhos não envelhecem"...

* Pepe Chaves é editor do jornal Via Fanzine e consultor para a Revista UFO.- Fotos: Paulo H. Ferreira / BH.

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